Quando Soria, a Deusa da Esperança, tombou na superfície com um espinho atravessado no peito, dizia-se por toda a Árvore Espiritual que a esperança havia sangrado junto com ela.

Quando Soria, a Deusa da Esperança, tombou na superfície com um espinho atravessado no peito, dizia-se por toda a Árvore Espiritual que a esperança havia sangrado junto com ela.
Quando Soria, a Deusa da Esperança, tombou na superfície com um espinho atravessado no peito, dizia-se por toda a Árvore Espiritual que a esperança havia sangrado junto com ela. Num galho distante e alto, castigado pela luz, a notícia chegou atrasada, e o povo que ali vivia recusou-se a aceitá-la. São os Esperalumes, os segundos dos dois povos espirituais que tecem, da própria essência, os sentimentos que mantêm as folhas da Árvore vivas. Os Trilhadonnos tecem a coragem; os Esperalumes acendem a esperança. Dos dois juntos nasce, nos seres de carne de Arcazia, o inefável Espírito Indomável Humano, e é por causa deles que o amor ainda encontra lugar num reino que apodrece.
O cabelo de um Esperalume é chama viva, e queima conforme o que ele sente: vermelho na fúria, azul no luto, e rosado quando a esperança fala mais alto. No centro do peito, cada um carrega um Core em forma de rosa dos ventos, o selo que os marca como o povo legítimo da falecida Soria; enquanto esse compasso arde, dizem, a Deusa não está de todo morta. São criaturas de porte luminoso e olhar quente, feitas para inspirar: a simples presença de um deles reacende a vontade dos que já se davam por perdidos, e há relatos de vilarejos inteiros que voltaram a pegar em armas só porque um Esperalume passou por suas ruas.
Trazem consigo uma escola de magia nova para Gloomhaven, a magia da esperança, com seus feitiços, suas armas, seu equipamento e seus selos. Qualquer outro povo pagaria um preço alto por manejá-la; os Esperalumes a empunham sem as desvantagens que ela impõe aos estrangeiros, porque a esperança é a matéria de que são feitos.
A dádiva mais preciosa dos Esperalumes é a reversão. A Névoa Cinzenta ceifa a vida e a condena ao irreversível; um Esperalume desfaz esse dano e devolve o fôlego à fauna já tirada de Gloomhaven, restaurando o que toda a sabedoria do reino dava por perdido para sempre. Sobre os Desperdícios Pestilentos, sua mão é firme e estranhamente misericordiosa: executam um Catatônico sem precisar decepar-lhe a cabeça, e conseguem exorcizar um Espectério da vítima que ele habita sem matar o hospedeiro, um dos únicos gestos capazes de salvar quem a garra do Âncora só saberia ceifar.
Guardam ainda um poder que muitos consideram cruel. Por um processo doloroso, um Esperalume pode devolver a um prateado, por alguns minutos, a lembrança de quem ele foi antes da prata, tempo suficiente para arrancar-lhe uma informação ou apenas para que a criatura entenda, com horror, no que se tornou.
Toda essa luz cobra um preço. O Desespero fere um Esperalume com o dobro da força, porque a esperança é frágil por natureza diante daquilo que a nega. Eles não geram memórias, e sua essência tem péssima paridade com a dos Âncoras: a aversão é irracional e física, e os mais fracos entre eles chegam a vomitar sem parar ao se aproximarem de um dos Filhos do Éter Sólido.
A notícia de que o Povo dos Espinhos assassinara Soria subiu até os galhos altos, e os Esperalumes decidiram que aquilo não ficaria sem preço. Sob o comando da Imperatriz Rhagagea, montaram uma operação-relâmpago coordenada com um objetivo só: pôr o maior número possível dos seus dentro da área de quarentena para terminar o trabalho que a Deusa começara, limpar Gloomhaven da Névoa Cinzenta e expurgar do reino a Irmã Yffa, os Espectérios e os Catatônicos.
O plano esbarrou na muralha. Inexperientes com os métodos que os Radiantes desenvolveram para impedir que povos vizinhos entrassem ou saíssem, os Esperalumes tentaram cair dos céus como asteroides, à moda antiga da invasão espiritual, e Garador os interceptou depressa. Quase oitenta por cento da frota foi abatida antes de tocar o solo, muitos deles pilotos de cometa derrubados pelos arpões dos prateados. Os Trilhadonnos foram os primeiros a reconhecer os corpos: os aliados distantes que tombavam do céu eram parentes seus, o segundo povo tecelão, e os sobreviventes foram acolhidos nos acampamentos trilhadonnos e avisados, tarde demais, de que haviam chegado ao pior lugar possível na pior hora possível. Rhagagea sobreviveu à queda. Nem ela nem os seus cogitam desistir.
Os Esperalumes creem-se, sem falso pudor, os detentores e representantes da Esperança na Árvore, e vivem essa crença como quem carrega uma divindade dentro do peito. Sua Donzela do Destino é a Imperatriz Rhagagea, a Lótus de Soria, que administra os seus com orgulho e cálculo e trata qualquer sinal de desânimo como doença a ser curada ou desprezada. É dela a leitura mais dura que o povo faz da própria fraqueza diante dos Âncoras. Sobre a aversão que sente por eles, Rhagagea costuma dizer:
"Eles não possuem uma figa sequer de Amor Próprio. Isso adoece qualquer Esperalume. Sem amar a si mesmo, não existe pavio para esperança, e quando a sua vida depende do erro dos outros, o timão do seu destino nunca é realmente seu."
Recém-chegados e sem chão próprio no reino sombrio, os Esperalumes ainda não ergueram cidade dentro das muralhas; vivem espalhados pelos acampamentos dos Trilhadonnos, que os reconhecem como irmãos distantes, enquanto pesam qual das facções da Aliança Luminosa merece a sua chama. A recepção que tiveram foi ambígua: os arpões prateados não pararam de atirar, e há quem, entre os luminosos, os veja menos como salvação e mais como um bando de fanáticos dispostos a exterminar os aflitos do reino em nome de uma Deusa morta.
Os Esperalumes ocupam, ao lado dos Trilhadonnos, o assento dos dois povos que tecem os sentimentos da Árvore a partir da própria essência, livres de qualquer estação. Cabe a eles a esperança, o sentimento que a morte de Soria quase apagou do reino e que insiste em voltar pelas frestas: os que estavam presentes quando a coragem trilhadonna trincou pela primeira vez a Muralha Prateada juraram que era como se Soria caminhasse de novo entre eles. Os Esperalumes são a prova viva dessa recusa. Enquanto o compasso de fogo arder no peito de um único deles, a Deusa da Esperança terá deixado alguém encarregado de não a deixar morrer por inteiro.
Casa: sem assento próprio, acolhidos entre os Trilhadonnos. Representante: Imperatriz Rhagagea, a Lótus de Soria.
-# 🔗 Veja também: Imperatriz Rhagagea, a Lótus de Soria · Trilhadonnos · Soria · Âncoras · Catatônicos · Espectérios · Irmã Yffa, a Devoradora de Rostos
