Uma ramificação nada evidenciada do Palácio Ourabrasa, criando assim uma ideia de inferioridade justamente por ser menor — dado o conceito ególatra da própria raça —, a Residência Esfinge é onde vivem, em Ghanliew, as criaturas mais aristocráticas do reino dourado. Esfinges nascidas da vontade de Garador, seres autoproclamados portadores da Ordem, irradiando como pepitas de ouro andante, e sempre se colocando acima de todos.
O recinto é bastante luxuoso, nem um pouco conformista ou pedante, mas o suficiente para enfatizar a realeza de quem o habita. Há corredores com janelas, cortinas, adornos, pequenas mesas e tapetes que conduzem aos banhos coletivos do segundo andar — onde a água quente, o vapor abafado e as cortinas longas dividem patamares para Donzelas e para acompanhantes. Há também os quartos das conselheiras, e os quartos das criadas, e as cabines onde se veste o uniforme que torna todas iguais.
Mas a igualdade aqui é uma ficção polida. Sem se dividirem em castas, todos são considerados iguais dentro dessa raça, o que apenas alimenta um individualismo exacerbado quando se trata de vaidade. A avareza e a vaidade são marcas de nascença. Aqueles que tiram a vida de uma irmã perdem uma cauda por cabeça ceifada — e passam o resto da existência tentando arrancar forças não se sabe de onde para pagar pelo mal que fizeram.
Ecos canônicos. Foi nesta residência que Kytzia Mesbah, a Luz do Amanhã, recebeu Freya Helium Del Ordus após o encontro na Praça das Flores Luminosas — banho, uniforme, e o pronunciamento de que a recém-chegada seria, de corpo e alma, uma das conselheiras da Donzela. “Garador destinou isso a você. E não sairá da minha tutela facilmente.” Foi também aqui que se viu uma das criadas, condenada à perda de uma cauda por fratricídio, esforçando-se o dobro em arrependimento — um dos poucos casos de arrependimento verdadeiro que se tem notícia.